segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

doce moeda



De Pedro, 3 anos e 5 meses, para Helena, 4 anos:

- Helena, me dá uma moeda de chocolate?

De Helena para Pedro:

- Não, Pedro, porque eu já peguei nelas e agora todas estão com germes. Você não vai querer, né?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Padaria


Eu redescobri a Carmem Delicatessen. Fui lá esta semana e parecia que eu estava numa vernissage de obras primas feitas de açúcar e creme. Agora, quero estar lá todos os dias. Helena também.

- Mãe, quando a gente vai de novo na Carmem Delicadeza?

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

viva de verdade


Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo o que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

Não é que a fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance. Para as coisas que não podem ser mudadas, resta-nos somente paciência. Porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros, há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

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Nunca desista de seus sonhos, Helena. Acredite na sua capacidade de superação, valorize seus objetivos, trabalhe para alcançá-los. Ultrapasse o "quase". Não se acostume a ele. Siga em frente. De coração aberto e alma elevada. Te amo. Amor da minha vida.

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(Dizem que quem escreveu este texto fabuloso, filha, foi Luís Fernando Veríssimo, que eu adoro, mas ele mesmo diz que foi Sarah Westphal Batista da Silva, colunista de O Globo, em 2005)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

uma meia perdida

- Este é o dia mais terrível do mundo!

Você estava inconsolável, amor.

- Eu nunca perdi nadinha das minhas bonecas. Coitadinha da Felisberta!

A meia da sua mais nova filha, Lê, tinha sumido no mesmo dia em que você ganhou a boneca de presente de Nenê. Podia estar na calçada por onde andamos, na loja onde compramos o seu vestido, na casa de tia Sandra Othuki... mas nada. Procuramos, procuramos, e nada.

- Ela está com frio no pé, mamãe. Quanta pena!

Foram 24 horas de aperreio. Mas a boa notícia veio ontem à tarde. A meia de Felisberta tinha sido achada debaixo do balcão da loja de bijuteria onde comprei o colar que você vai usar na sua festinha de aniversário amanhã, na escola. Que alívio, hein?

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Estacionamento do Shopping: R$4,00

Caixinha de papelão da Escrita Fina: R$4,90

A felicidade da filha quando encontra a meia da boneca: não tem preço.

madame Helena e sua bola de cristal



Reservar. Esta é uma de suas palavras preferidas quando entramos numa loja de brinquedos, filha. Se percebe que não vai ter jeito de conseguir convencer a gente de comprar algum brinquedo, você corre para o vendedor e fala:

- Moço, reserve pra mim, viu? Helena o meu nome.

Esta semana, eu já estava na fila pra pagar as maletas de artes que a gente vai dar de Natal pra Malu, Mamá e Clarinha quando te vi de papo com uma vendedora - duas caixas na tua mão. A moça veio em minha direção.

- Senhora, ela pediu pra reservar para o irmãozinho, pode ser?

Era uma lanterna e uma bola inflável do Homem-Aranha...

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É muito lindo ver que o seu futuro irmãozinho já possui espaço em sua vida, minha sapeca. Aos poucos, mesmo sem ainda ter sido gerado, ele vai ocupando lugar no seu coração e no seu dia-a-dia. Não tenho a menor dúvida de que você vai ser uma super-irmã, como Dora, a Aventureira, com seus irmãos super-bebês. Formando, com o papai e a mamãe, uma super-família. Sua linda.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

o nome dela é Dilma


Só eu acho Dilma parecida com tia Oara
Pela primeira vez na história do nosso país, filha, uma mulher foi eleita presidente do Brasil. O nome dela é Dilma. Dilma Rousseff. Antes, apenas homens haviam passado pela presidência da República. Lula (que você perguntou se era o Lula Molusco, do desenho do Bob Esponja), Fernando Henrique, Itamar, Fernando Collor, Sarney.

Quando você estiver com a minha idade, por volta dos 30 anos, talvez já seja comum uma mulher executando atividades diversas e assumindo funções como a de presidente da República - e eu espero que sim. Mas hoje, Helena, este é um grande feito.

Algumas décadas atrás, no Brasil, o direito de votar era apenas dos homens, sabia? Mas veja só: hoje, além de votarmos, estamos também nos fazendo presentes na política - devagarzinho, mas em porções cada vez maiores. Uma luta permanente. Pra você ter uma ideia, quando a mamãe trabalhou na Câmara Municipal do Recife, dos 36 vereadores, três eram mulheres. Grandes mulheres. Priscila Krause, Aline Mariano e Marília Arraes. Mas uma legislatura antes, apenas Luciana Azevedo (mulher excepcional) ocupava uma cadeira na Câmara. Avançamos.

Direitos iguais. Chances semelhantes. Nem mais, nem menos. Pra o mundo entender de uma vez por todas todo o nosso potencial de contribuição. Viva! 

coisa de menino



Amigos homens sempre têm uma forma especial de se chamarem quando conversam uns com os outros, filha. Uma forma menos carinhosa e mais esquisitinha do que nós quando falamos com nossas amigas. Você sabe, a gente se chama de amiga, fofaquerida ou linda.

Foi neste fim de semana. O telefone do papai tocou. Era Demetrius, amigo de longa data de Edu.

- Fala, ladrão.  

Você tomou um susto com a frase do papai. E olhou pra mim, confusa e assustada.

- Mamãe, papai tem um amigo ladrão!

Expliquei pra você que aquela era uma forma meio maluquinha de chamar um amigo. Coisa de homem que meninas e mulheres não entendem muito.

Àquela altura, o papai e o tio Demetrius já tinham conversado e estavam quase desligando o telefone. E, então, Edu se despediu:

- Vai nessa, papai, a gente se fala mais tarde, então. Tchau.

Coitadinha. Você ficou mais confusa ainda - e exclamou:

- Mamãe, o ladrão é pai do papai, meu Deus! Pai do papai!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Josué


Hoje de manhã, encontrei o moço que limpa os vidros do restaurante do hotel onde estou hospedada aqui em Maceió, filha - o mesmo onde você esteve no primeiro turno da campanha pra governador. Cumprimentei, dei um sorriso e ele retribuiu. Em seguida, perguntou sobre você. Expliquei que a sua chegada estava marcada para a próxima semana, e ele revelou:

- A sua menina é especial, senhora. Eu comentei com a minha esposa. A sua filha é humilde. Cuide bem dela. Sempre.  

Minha linda, ele falou aquilo com uma verdade tão grande que me emocionou na mesma hora. Agradeci, apertando a sua mão, mas a vontade era de abraçá-lo fortemente e me debulhar em lágrimas.

Todos os dias, no café da manhã, quando você chegava ao restaurante, lá estava ele do lado de fora limpando os vidros das janelas. Então você imitava, com um sorriso no rosto, todos os gestos dele. Limpa de cima pra baixo com aquele rodinho e joga a água da espuminha longe. 1,2,3, pá! 1,2,3, pá!

Então eu te falei:

- Vai lá, filha, pergunta o nome dele.

Josué. Naquele dia, ele te ensinou a limpar os vidros de uma janela. Entregou na tua mão o rodinho, deixou que você o mergulhasse na água e limpasse um janelão inteiro. Foi lindo de ver. Você achou o máximo - e ele também, e eu também.

Depois disso, todas as manhãs, na hora do café da manhã, você corria em sua direção e dizia, com toda a sua alegria:

- Bom dia, Josué!

Certa vez, não o encontramos por lá. E você saiu perguntando por ele a quem quer que passasse na sua frente. Ele estava de folga, disse a camareira.

Talvez nenhum outro hóspede tenha perguntado o nome dele, ou feito questão de dar bom dia todos os dias, ou se interessado pelo seu trabalho. Então, você deu a aquele homem um presente. E ganhou outro muito valioso também: as boas vibrações, os bons pensamentos.

Meu dia hoje começou com as palavras do Josué. Que me acompanham até agora.

domingo, 17 de outubro de 2010

passe adiante


Correntes do bem estão espalhadas por aí, amôre. As manifestações em favor da paz e da humanidade têm crescido. Continua uma luta árdua pelo fim da intolerância, da desonestidade e do egoísmo. No mundo inteiro, guerras, preconceito e corrupção ainda dão trabalho. Mas a boa vontade em nome de um mundo mais humano tem surtido um efeito "em cascata" fenomenal. E deve ser assim. Eu já te apresentei esse pensamento do Martin Luther King:

O que me preocupa não é o grito dos maus.
É o silêncio dos bons. 

Hoje, ganhei um presente. Conheci uma fundação chamada Para uma Vida Melhor. A ideia é nutrir e passar adiante valores que parecem meio esquecidos hoje em dia. Para isso, eles também têm um site (clique aqui) lindo, lindo, lindo. Um convite para que todos nós paremos um pouco para navegar rumo às escolhas certas. As escolhas certas, Helena. Que devem ser banhadas de integridade, superação, sacrifício, generosidade, otimismo, respeito e amor. O site é um oásis virtual.

A mamãe ficou tão apaixonada pelos comerciais de TV que eles criaram - e que distribuem de graça-, que até pediu um DVD com o material para que a gente comece a criar a nossa corrente do bem, começando por sua escola. Material que deve chegar daqui a pouco mais de um mês, se eu for aprovada. E que também vou guardar na sua caixa de memórias, que já está bem abarrotadinha. 

Para os amigos e amias que chegaram até aqui, é hora de parar 60 segundos. Dar um tempo no que estiver fazendo. Para pensar nisso daqui:


E olha que outdoors incríveis:








Eu amei. Amei.
                               


sobre honestidade




Todos nós precisamos saber o que significa ser honesto. Honestidade é muito mais do que não mentir.
É falar a verdade, contar a verdade,
viver a verdade e amar a verdade.
(James E. Faust)

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Que coisa linda, minha filha. A honestidade. A verdade. Andar com elas. Faz um bem danado. Todas as vezes em que eu caminhei um pouco distante das duas, senti um peso imenso em minhas costas. Certa vez, encontrei dinheiro no chão de um shopping e peguei. Cheguei até a perguntar às pessoas que estavam por perto se não tinha caído do bolso delas. Mas não tinha caído. Peguei a nota e guardei na bolsa. Voltei para casa pensando. Eu não sabia quem era o dono da nota, mas tinha ao menos uma certeza: não era minha. Por isso, deveria ter deixado no mesmo local em que a encontrei. Para que o dono pudesse pegá-la. Ou para deixar o gesto feio para outra pessoa que não eu. Em outra oportunidade, recebi o troco do caixa de uma lanchonete num valor maior do que o correto - e não aceitei. Desta vez, voltei pra casa feliz. Porque fiz a escolha certa. 

sobre compartilhar

reginaldotech.com.br

Qualquer coisa que temos dobra de valor quando temos a oportunidade de compartilhá-la com o próximo.
(Jean-Nicolas Bouilly)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

10 coisas que o papai adora

1. Dar risada

 2. Música



3. Chocolate




4. Ver televisão



5. Ouvir - e falar




6. Sinceridade - com delicadeza




7.  Viajar - a mais recente novidade é Dubai, nos Emirados Árabes, para tomar banho de piscina a 200  metros de altura, na Marina Bay Pool...  Este é o seu pai, Helena (risos).






8. Trabalhar



9. Praia




10. Ar condicionado



10 coisas que a mamãe adora

1. Estar acordada


2. Cheiros bons


3. Abraço


4. Não pensar em nada de vez em quando



5. Viajar para qualquer lugar, e mesmo pra dentro de mim mesma



6. Olhar nos olhos


7. Vestidos

8. Sobremesas


9.  Fotografias



10. Dirigir 

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

e tudo continua

Imagine que você está à beira mar e vê um navio partindo. Você fica olhando, enquanto ele vai se afastando, se afastando, cada vez mais longe, até que finalmente parece apenas um ponto no horizonte - lá onde o mar e o céu se encontram. E aí você diz: pronto, ele se foi. Foi aonde? Foi a um lugar que a sua vista não alcança, só isto. Ele continua tão grande, tão bonito e tão importante como era quando estava perto de você. A dimensão diminuída está em você, não nele. E naquele exato momento em que você está dizendo "ele se foi", há outros vendo-o aproximar-se e outras vozes exclamando com júbilo: Ele está chegando!

(Henry Sobel)

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Minha doce Helena, o infinito existe. E tudo continua. Mesmo quando a gente acha que a vida acabou. E não há terreno mais fértil para continuarmos existindo do que o coração daqueles que nos amam. Ali passamos a residir eternamente.

Este texto do rabino (que significa "aquele que ensina", "mestre") Henry Sobel é um guia para mim, amôre. Faz alguns anos que li estes pensamentos pela primeira vez - e me senti profundamente atingida por esta grande lição. Sempre pensei assim também, exatamente assim. E acredito firmemente em cada palavra de Sobel, cuja religião é o judaísmo. Lê sobre isso, que é muito interessante.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

a gente se acostuma, mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(Marina Colasanti - 1972)

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Marina Colasanti nasceu na África, amor, mais precisamente na Etiópia. Viveu a maior parte da infância na Itália e depois, aos 12 anos, veio para o Brasil. Ela publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu um prêmio, chamado de Jabuti, com o livro "Eu sei, mas não devia" e também por "Rota de Colisão".


Quando eu tive acesso a "Eu sei, mas não devia", ainda era adolescente e estudante de jornalismo. Foi paixão à primeira vista. Tocou fundo.

faça o amor bonito


"Talvez seja tão simples, tolo e natural que você nunca tenha parado para pensar: aprenda a fazer bonito o seu amor. Ou fazer o seu amor ser ou ficar bonito. Aprenda, apenas, a tão difícil arte de amar bonito. Gostar é tão fácil que ninguém aceita aprender.

Tenho visto muito amor por aí, amores bravios, gigantescos, descomunais, profundos, sinceros, cheios de entrega, doação e dádiva, que esbarram na dificuldade de se tornar bonito. Aí esses amores que são verdadeiros, eternos e descomunais de repente se percebem ameaçados apenas e tão somente porque não sabem ser bonitos: cobram; exigem; rotinizam; descuidam; reclamam; deixam de compreender; necessitam mais do que oferecem; precisam mais do que atendem; enchem-se de razões. Sim, de razões.

Ter razão é o maior perigo no amor. Quem tem razão sempre se sente no direito (e o tem) de reinvindicar, de exigir justiça, equidade, equiparação, sem atinar que o que está sem razão talvez passe por um momento de sua vida no qual não possa ter razão. Ter razão é um perigo: em geral enfeia o amor, pois é invocado com justiça mas na hora errada. Amar bonito é saber a hora de ter razão. Cheio ou cheia de razões, você espera do amor apenas aquilo que é exigido por suas partes necessitadas, quando talvez dele devesse pouco esperar, para valorizar melhor tudo de bom que de vez em quando ele pode trazer.

Quem espera mais do que isso sofre e, sofrendo, deixa de ser alegre, igual criança. Não tema o romantismo. Derrube as cercas da opinião alheia. Faça coroas de margaridas e enfeite a cabeça de quem você ama. Saia cantando e olhe alegre. Recomendam-se encabulamentos; ser pego em flagrante gostando; não se cansar de olhar e olhar; não atrapalhar a convivência com teorizações; adiar sempre, se possível com beijos, “aquela conversa importante que precisamos ter”, arquivar as reclamações pela pouca atenção recebida. Para quem ama toda atenção é sempre pouca.

Não teorize sobre o amor (deixe isso para nós, pobres escritores que vemos a vida como criança de nariz encostado na vitrine, cheia de brinquedos dos nossos sonhos): ame. Siga o destino dos sentimentos aqui e agora. Não tenha medo exatamente de tudo o que você teme, como a sinceridade; não dar certo; depois vir a sofrer (sofrerá de qualquer jeito); abrir o coração; contar a verdade do tamanho do amor que sente. Jogue pro alto todas as jogadas, estratagemas, golpes, espertezas, atitudes sabidamente eficazes (não é sábio ser sabido).

Seja apenas você no auge de sua emoção e carência, exatamente aquele você que a vida impede de ser. Seja você cantando desafinado, mas todas as manhãs. Falando besteiras, mas criando sempre. Gaguejando flores. Sentindo o coração bater como no tempo do Natal infantil. Revivendo os carinhos que instruiu em criança. Sem medo de dizer eu quero, eu gosto, eu estou com vontade. Talvez aí você consiga fazer o seu amor bonito, ou fazer bonito o seu amor, ou bonitar fazendo seu amor, ou amar fazendo o seu amor bonito, sempre que ele seja a mais verdadeira expressão de tudo o que você é e nunca deixaram, conseguiu, soube, pôde, foi possível ser.

Se o amor existe, seu conteúdo já é manifesto. Não se preocupe mais com ele e suas definições. Cuide agora da forma. Cuide da voz. Cuide da fala. Cuide do cuidado. Cuide do carinho. Cuide de você. Ame-se o suficiente para ser capaz de gostar do amor e só assim poder começar a tentar fazer o outro feliz."

(Artur da Távola)

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Este, meu bem, é um dos meus textos preferidos sobre o amor. Faz tempo que descobri estas palavras preciosas de Artur da Távola, brasileiro do Rio de Janeiro que morreu com pouco mais de 70 anos na década de 80 e era jornalista, escritor e homem sensível. Pode ser um texto um pouco denso para seus primeiros anos, mas valioso o suficiente pra te esperar um pouco mais. Leia e releia sempre que possível. Salve o amor, Helena.

domingo, 10 de outubro de 2010

sobre irmãos

Vamos com calma, amor,
vamos com calma, please...

- Você quer ter irmãozinhos um dia?

A vendedora da loja de brinquedos tentava uma aproximação com Helena.

A resposta dela?

- Quero sim, um irmãozinho E uma irmãzinha, NA MESMA BARRIGA.

A pergunta que não quer calar, sua danadinha, é de onde você tirou essa ideia... Só você mesmo, Helena, só você.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

gasolineiro

O gasolineiro ou frentista

A curiosidade é uma de suas maiores características, queridona. E foi assim quando paramos para abastecer o carro mais uma vez.

- Mãe, qual o nome do gasolineiro?

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Frentista, baby. As pessoas que trabalham abastecendo os carros nos postos de gasolina são chamadas de frentista. Mas podiam mesmo serem gasolineiros.

E o nome dele, conforme você mesma ouviu, é Renato. :)

buraco pra se danar

O Recife tá no buraco mesmo

Foi esta semana, levando Lelê para a escola. Passamos por uma rua perto de casa realmente muito esburacada. Desviava de um buraco, e caía noutro. A boneca reclamou:

- Mamãe, quanto buraco!

E eu falei:

- Pois é, filha. O asfalto é até bem firme, mas quando chove vai entrando água aos pouquinhos e aí ele vai ficando cheio de falha. E se chover demais, os buracos vão surgindo e ficando cada vez maiores. Mas existe um pessoa chamada prefeito que cuida da nossa cidade e então tapa esses buracos.

No outro dia, na mesma rua, no mesmo horário, caímos em todos aqueles buracos novamente. E Helena ficou indignada:

- Meu Deus, cadê esse prefeito que não aparece???

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institutomauriciodenassau.com.br

O nome dele é João da Costa, amor. É um político que faz parte de um partido chamado Partido dos Trabalhadores, ou PT. Desde que você tinha pouco mais de dois anos, ele é como se fosse o grande cuidador da nossa cidade. Mas está mesmo precisando cuidar melhor dela.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

vende-se tudo

Era uma senhora de pouco mais de 60 anos. Cabelos grisalhos, desalinhados, pele branca, olhos verdes, dentes ligeiramente separados, acima do peso. Uma quantidade considerável de rugas. Olhar e sorriso perturbados e perturbadores. Morava sozinha, de aluguel. E foi personagem de um documentário a que assisti ontem. A casa dela não era uma casa. Era um montão de lixo e comida podre.

Ela tinha um problema sério. Comprava muito mais comida do que a quantidade de que precisava. E adorava promoções. Não resistia a nenhum tipo de alimento que estivesse anunciado com preço mais baixo. Lotava a geladeira, o balcão da cozinha, a mesa da sala, o assento das cadeiras, o sofá e todo e qualquer canto da casa onde houvesse espaço. Era tanta comida na geladeira e congelador que a mulher usava fita adesiva para fechar a porta. Caldos de cores e cheiros esquisitos pingavam, restos de comida a escorrer pelas prateleiras geladas. Alimentos com um, dois anos vencidos, e abóbora, queijos e maçãs apodrecidos só faziam a alegria das moscas mesmo. Eram muitas - assim como a quantidade de gatos. A desorganização daquela senhora era outra característica de assustar. A pia da cozinha tinha pratos sujos há mais de sete dias. Copos se acumulavam no chão. Tralhas, roupas, eletrodomésticos e eletroeletrônicos: tudo era entulho, jogado de qualquer forma, em qualquer lugar, até no banheiro. Algo estava errado, mas só ela não percebia. 



Tem gente que acha que pode ocupar o vazio
que carrega no coração com bens materiais.
Não é nada disso.
Depois acompanhei a história de um casal com dois filhos que tinham problema semelhante. Ela, uma jovem mãe que comprava além do limite e vivia cheia de dívidas. Ele, um pai com uma dificuldade absurda de se desfazer de objetos materiais. A casa era quase igual à da senhora. A bagunça era tanta, com tantos objetos inúteis espalhados pela casa, que as refeições da família eram feitas na cama de casal, o único lugar livre de quinquilharias. Não dava pra ver a cor do chão - as roupas de todos, sujas ou lavadas, cobriam o piso. O quarto das crianças era todo riscado de lápis de cor e giz de cera. Brinquedos - quebrados ou não - desafiavam quem se aventurasse a entrar naquele cômodo. Um horror.

Existem pessoas cujo trabalho é ajudar outras mais desorganizadas a pôr ordem na casa. E você não imagina a dificuldade que tanto a velhinha quanto o casal tiveram de se desfazer de todo aquele lixo que já não prestava mais para nada. Mesmo quebrados ou inúteis, os objetos ainda significavam muito para eles.


A gente deve colecionar amigos, boas ações e momentos,
mas não isso.

 E veja que curioso, filha. Quando abro hoje o meu e-mail, encontro uma mensagem de tia Rosana com uma história pra fazer a gente pensar justamente no que de fato deve ser valorizado nesta vida. E tenha certeza, não é nada daquilo que podemos comprar. Deixar de lado o zelo excessivo por coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar. Pensa nisso. Te amo.

VENDE-SE TUDO
(Martha Medeiros)

No mural do colégio da minha filha encontrei um cartaz escrito por uma mãe, avisando que estava vendendo tudo o que ela tinha em casa, pois a família voltaria a morar nos EstadosUnidos.

O cartaz dava o endereço do bazar e o horário de atendimento. Uma outra mãe, ao meu lado, comentou:

- Que coisa triste ter que vender tudo que se tem.

- Não é não, respondi, já passei por isso e é uma lição de vida.

Morei uma época no Chile e, na hora de voltar ao Brasil, trouxe comigo apenas umas poucas gravuras, uns livros e uns tapetes. O resto vendi tudo, e por tudo entenda-se: fogão, camas, louça, liquidificador, sala de jantar, aparelho de som, tudo o que compõe uma casa.

Como eu não conhecia muita gente na cidade, meu marido anunciou o bazar no seu local de trabalho e esperamos sentados que alguém aparecesse. Sentados no chão. O sofá foi o primeiro que se foi. Às vezes o interfone tocava às 11 da noite e era alguém que tinha ouvido comentar que ali estava se vendendo uma estante.

Eu convidava pra subir e em dez minutos negociávamos um belo desconto. Além disso, eu sempre dava um abridor de vinho ou um saleiro de brinde, e lá se iam meus móveis e minhas bugigangas. Um troço maluco: estranhos entravam na minha casa e desfalcavam o meu lar, que a cada dia ficava mais nu, mais sem alma.

No penúltimo dia, ficamos só com o colchão no chão, a geladeira e a tevê. No último, só com o colchão, que o zelador comprou e, compreensivo, topou esperar a gente ir embora antes de buscar. Ganhou de brinde os travesseiros..

Guardo esses últimos dias no Chile como o momento da minha vida em que aprendi a irrelevância de quase tudo o que é material. Nunca mais me apeguei a nada que não tivesse valor afetivo. Deixei de lado o zelo excessivo por coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar.

Hoje me desfaço com facilidade de objetos, enquanto que se torna cada vez mais difícil me afastar de pessoas que são ou foram importantes, não importa o tempo que estiveram presentes na minha vida..

Desejo para essa mulher que está vendendo suas coisas para voltar aos Estados Unidos a mesma emoção que tive na minha última noite no Chile. Dormimos no mesmo colchão, eu, meu marido e minha filha, que na época tinha 2 anos de idade. As roupas já estavam guardadas nas malas. Fazia muito frio.

Ao acordarmos, uma vizinha simpática nos ofereceu o café da manhã, já que não tínhamos nem uma xícara em casa.

Fomos embora carregando apenas o que havíamos vivido, levando as emoções todas: nenhuma recordação foi vendida ou entregue como brinde. Não pagamos excesso de bagagem e chegamos aqui com outro tipo de leveza.

... só possuímos na vida o que dela pudermos levar ao partir.