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sábado, 28 de agosto de 2010

Capiba

O Mestre
Você já conhece a arte de Romero Brito. Inspirada nele, produziu na escola um porta treco todo colorido, decorado com uma borboleta que ganhou vida a partir de suas mãos. Conheceu a escrita de Ana Maria Machado. Durante uma semana, descortinou junto com a turminha da Vila a obra dela, especialmente Menina bonita do laço de fita. História sobre uma negrinha linda que encanta um coelhinho branco por sua cor de chocolate. Visitou a Oficina Cerâmica Francisco Brennand depois de uma série de vivências que colocaram você no universo de um dos artistas brasileiros mais reconhecidos em todo o mundo. Semana passada, aprendeu sobre o nosso estado, Pernambuco. Foi apresentada à nossa bandeira. Entendeu o significado de cada símbolo inscrito nela. Chegou em casa cantando "salve, ó terra, dos altos coqueiros/de beleza, soberbo estendal/nova Roma de bravos guerreiros/Pernambuco imortal, imortal". Agora, vai mergulhar na história de um músico e compositor pernambucano - ele escrevia músicas fantásticas, filha - de sensibilidade e paixão extrema por nossa terra. O nome dele é Lourenço da Fonseca Barbosa, mas todo o mundo o chama de Capiba. Querida, todo o mundo reverencia a obra dele. A gente faz isso quando alguém é rei em alguma coisa. E ele é o Rei do Frevo.


Obra de Mônica Fuchshuber

Capiba morreu no ano em que a mamãe começava a estudar para ser jornalista. Tinha 93 anos, os cabelos bem branquinhos e usava um óculos grosso que a gente chama de fundo de garrafa. Tinha cara de vovô bonzinho, sabe? Pois ele nos deixou de herença mais de 400 músicas, entre elas De chapéu-de-sol aberto. Música linda que vamos ouvir e cantar juntas muitas vezes nesta vida:


De chapéu de sol aberto
Pelas ruas eu vou
A multidão me acompanha, eu vou
Eu vou e venho pra onde não sei
Só sei que carrego alegria
Pra dar e vender
(deixa o barco correr)
Espero um ano inteiro
Até ver chegar fevereiro
Pra ouvir o clarim clarinar
E a alegria chegar
Essa alegria que em mim
Parece que não terá fim
Mas, se um dia o frevo acabar
Juro que eu vou chorar.

sábado, 21 de agosto de 2010

o que vale na vida

Vivemos uma tarde linda ontem. Comemoração de mais um aniversário de Juju. 13 anos. Ela e mais seis amigas lá em casa para um almoço gostoso feito com carinho pelo tio Lúcio. Tia Rosana estava por lá, cuidando de viver a alegria da filha e organizar as coisas com a ajuda de Nenê. Foi dia de faxina. Nicole deve ter ficado bem aperreada com toda aquela garotada, coitada. Mas entendeu muito bem quando eu disse que aquela festinha era também para cada adolescente que já fomos um dia e guardamos dentro da gente.

Conjugue sempre este verbo, querida: unir

Achei que o papai só fosse chegar de Maceió no final da tarde. Mas que surpresa abrir a porta do nosso lar e encontrar, além daquela turma linda almoçando, o nosso rei sentado junto da janela, olhando pra mim com cara de arteiro. Ele tinha falado comigo ao telefone cinco minutos antes dizendo que me ligaria em breve pra passar o número do voo. Danado.

Você estava tão feliz. Correu, toda mignon, de calcinha amarela e fivelinha no cabelo, em minha direção. O seu sorriso de sol chegou antes dos seus braços. Existe coisa melhor? Fluidos de alegria cobrindo a casa?

Juventude. Frescor. Vida. O importante. O fundamental. Vozes. Risadas. Unidade.

O pano de fundo da festa? "Superfantástico", do Balão Mágico, que você queria muito mostrar para as meninas. Fofas e delicadas, elas acharam uma graça.


A Turma do Balão Mágico
foi também "do meu tempo", amor

Juntas, vocês colaram as figurinhas novas no álbum do Toy Story. Mais adiante, enquanto elas tomavam banho, a gente organizou todas as minhas maquiagens no balcão do meu banheiro para elas se produzirem para ir ao cinema. Curiosa, você tocou o pó compacto e levou o dedinho à boca. Fez um careta e deu uma risadinha.

- Helena, você vai querer que cor de batom?, perguntou uma das garotas.

E você:

- Eu não posso, meninas. Eu sou criança.

Um coro de "AAAiii, que fofa" chegou até o seu quarto, onde eu estava conversando com a tia Rosana. Demos um sorriso.


Maquiagem não é mesmo
para criança, meu bem

Eram quase 16h30 quando eu chamei o táxi para levar a turma para o cinema, pois é claro que não ia caber tanta gente só no carro com tia Rosana. E adivinha a que filme elas iam assistir?

Meu malvado favorito.

- Não acredito, meninas, eu já vi! Mamãe, eu quero ir de novo.

E foi, toda cúmplice, toda feliz, toda Helena.


"Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora, pois tudo passa a acontecer dentro de nós" (Clarice Lispector)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

audição e olfato

Ontem eu descobri que você adora o cheiro da gasolina, sua pirrôta. E você falou de um jeito tão natural e inesperado que acabei dando a gargalhada que me valeu o dia. Foi num posto de combustível pertinho da nossa casa.

Claro que você não se contentou em esperar muito quieta pelo abastecimento. Quis sair pra ver como o carro é abastecido. Esticou tanto a cabeça pra ver melhor a gasolina jorrando que o frentista alertou uma vez:

- Cuidado. O cheiro é muito forte.

O compartimento da frente do veículo, ali juntinho do motor, também estava vazio. Acompanhamos o moço. Ali, ele foi colocando devagarzinho para não esborrar. E você, quase se desvencilhando dos meus braços e se esticando pra ver mais de perto.

- Cuidado. O cheiro é muito forte.

Contrariando o alerta, você respirou profundamente, enchendo o pulmãozinho de ar. E revelou:

- Eu adorei esse cheiro, mamãe.

O perfume das coisas tem um poder danado, Lê. Eu mesma tenho um creme pra passar nos pés com aroma de castanha. É um cheiro igualzinho ao que eu já senti um dia, muitos, muitos, muitos anos atrás. Não sei exatamente quando e como. Mas traz uma sensação de bem-estar tão gostosa. Nunca consegui enjoar desse cheiro.


O hidratante mágico

Gofo de bebês. Também adoro. Nenhuma mamãe de nenhum bebê que gofar em mim precisa pedir desculpas. Aquele azedinho me remete a você recém-nascida, no meu colo, esperando pra arrotar depois de uma bela mamada. Às vezes, vinha só arroto. Outras, aquela gofada que só eu achava um poema.

Música também desperta na gente o mesmo sentimento. Dia desses eu estava ouvindo Cama e Mesa, de Roberto Carlos, que a gente costuma dizer que é o "Rei" da música romântica brasileira.

Eu quero ser seu travesseiro/ E ter a noite inteira/ Pra te beijar durante o tempo que você dormir/ Eu quero ser o sol que entra no seu quarto adentro/ Te acordar devagarinho/ Te fazer sorrir...


Meu Deus, Helena, ouvir essa música é voltar no tempo em que eu tinha no máximo cinco anos. Vejo uma grande "loja de discos", com pé direito (altura) alto, numa esquina que me parece ser a de alguma rua do Centro do Recife.  Vovô e vovó estão lá também. A loja é cor de rosa e tem capas de "LP's" espalhadas pelas paredes. Na "radiola", toca Cama e Mesa. Parece um sábado pela manhã.


A capa do "disco" do Roberto Carlos
 que o vovô e a vovó compraram naquele dia

Chuva de Prata, de Gal Costa.


Ouça a chuva mais vezes, amor. Dê voz a ela.

Chuva de prata que cai sem parar/ Quase me mata de tanto esperar/ Um beijo molhado de luz sela o nosso amor./ Toda vez que o amor disser 'vem comigo'/ Vai sem medo de se arrepender/ Você deve acreditar no que eu digo/ Pode ir fundo / Isso é que é viver...

Agora estou em Natal, no Rio Grande do Norte. Estou na porta da casa de Tia Preta, tia da tia Karol, olhando a chuva que cai fina sobre o jardim. Sinto gosto de farinha láctea na boca. É um domingo de manhã e todos devem estar dormindo. Menos eu. O momento é de paz.

Memórias. Passagens. Sentimentos. O nome disso é história. 

terça-feira, 17 de agosto de 2010

do lado de dentro

Amor que corre na veia

Meu sono foi interrompido por você esta noite, querida. De olhinhos fechados e ainda enebriada, falou baixinho:

- Mamãe, eu não quero ir todo dia pra escola.

- Ó, mamãe, eu quero acordar e tomar café da manhã com você.

Que golpe, pequena. Há seis meses que isso não acontece. Continua sendo o meu calcanhar de aquiles (o ponto fraco da mamãe). Você nem imagina a dor que é sair cedo de casa rumo ao trabalho sem poder olhar nos teus olhos e te desejar bom dia. Sem poder te aninhar em meus braços pra te dar o gagau. Sinto falta de escovar os teus cabelos, escolher a fivelinha, insistir pra que escove os dentes, sair correndo atrás de você para colocar a fardinha da Vila. Dói em nós duas. E nem eu nem você ainda nos acostumamos.

O fato, meu bem, é que sua mamãe gosta de trabalhar. E se sente feliz podendo ser útil às pessoas. O grande desafio é o desejado ponto de equilíbrio, que sua mãezinha ainda continua buscando. Às vezes, e atualmente com uma certa freqüência, tenho vontade de jogar tudo pro alto pra poder te levar de novo à escola, conversar com suas professoras e sentir o dia começar do jeito que já foi um dia. E ainda vai ser. Logo. Logo. Em breve. A mamãe tá batalhando pra isso.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

lados



Sua mamãe tá longe de ser perfeita, filha. Tenho um monte de defeitos, sabe? É porque eu sou de carne e osso. Real. E a gente sempre aprende com aquilo que nos tira do eixo. É o lado bom dos defeitos. O desafio que eles impõem a quem carrega eles.

Meu Deus, eu detesto certas coisas de adulto. A burocracia da vida adulta. As regras. Convenções. Formalidades. Resoluções o dia inteiro, todo dia. Responsabilidade. Correria. 

Ontem à tarde teve um lanchinho na casa de Dona Léia, avó de sua prima Júlia. Lanche de aniversário de Juju. Eu, você e o papai fomos os primeiros a chegar. Você logo correu para o quarto de Malu pra brincar. Sentei, então, na varanda. Nada de barulho de carro ou buzina. Um vento leve. A voz de um passarinho bem longe. O céu com poucas nuvens. O tempo se fazendo presente no compasso que eu admiro.

É preciso perguntar: aonde queremos chegar correndo tão loucamente? Atrás de quê? Alguém me disse um dia que não há caminho para a felicidade. "A felicidade é o caminho". Neste caso, é melhor ir mais devagar pra apreciar os sabores dessa emoção.

Franqueza demais pode ser defeito? Mesmo quando falado sem exaltação? Sofro disso também, bebê. Não sempre, porque tem gente que nunca entenderia a intenção da franqueza. Tem gente que nunca mereceria o meu desgaste de tentar explicar as coisas. Por isso, normalmente eu sou bem sincera com aquelas pessoas que mais amo, mas tem que ser alguém mais ou menos equilibrado pra não dar em briga. Detesto brigar.

Sofro de impaciência também. E, às vezes, de uma melancolia como esta que estou sentindo agora. Mas ainda bem que já são 23:02. E amanhã é um novo dia.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

meu malvado favorito

Olha o Gru aí

O nome dele é Gru. Careca, quase sem pescoço, pernas fininhas, nariz comprido e pontudo, roupas sempre pretas. É um homem à primeira vista bem malvado. Não gosta de crianças, não respeita as pessoas, não ganha dinheiro trabalhando, mas roubando as coisas mais malucas. A última esquisitice que Gru põe na cabeça é o roubo da Lua. Junto com seu exército de amarelinhos, ele monta um super esquema para conseguir realizar o plano. O problema é que Gru dá de cara com Vector, um jovenzinho com cara de bobão - mas muito esperto - e com os mesmos planos que ele.



Vector é o verdadeiro vilão da história


Vector adora os biscoitos vendidos por um trio de meninas muito fofas de um orfanato dirigido por uma senhora que mais parece uma bruxa de tão ruim. Pra entrar na casa de Vector e conseguir o super redutor de objetos que lá está, Gru acaba adotando as menininhas Agnes, Edith e Margô. Com o equipamento maluco, Gru pretende encolher a Lua e vendê-la ao maior banqueiro – e pilantra – da cidade.


Margô, Agnes e Edith
Gru só não esperava aprender a amar. Justo ele, que teve uma mãe fria e insensível, incapaz de lhe dar um pouco de carinho. As super fofas transformam a casa de Gru. Levam alegria, bagunça, cor. Sentimento. O coração do vilão vai sendo preenchido por afeto e ele começa a mudar sem nem perceber. No final, Gru entende que o que mais vale na vida não tem nada a ver com dinheiro ou conquistas. Mas com algo muito mais simples. E a vida ganha outra dimensão.


O filme é uma lição de afeto
Você adorou o filme, minha filha. Fomos só nós duas, bem no meio da semana, porque o papai está viajando, numa reunião de trabalho em São Paulo. O cinema estava quase vazio. Antes, a gente passou na lojinha de guloseimas. Você logo correu para pegar as moedas de chocolate parecidas com as de verdade por causa da embalagem dourada. Eu preferi as jujubas com aquele açúcar azedinho. Um pacotão de pipoca completou nossa alegria. Foi uma sessão em 3-D, que ainda é novidade atualmente. Eu adoro, mas você sempre prefere ficar sem os óculos porque eles são muito grandes. Tudo bem. Não tem problema.

Mas deixa eu te contar a melhor parte do filme, Lê.

Sabe qual foi?

Foi quando você pediu para ir pro meu colo, tirou a sapatilha e se enroscou entre os meus braços, quase como um emboá – aquelas minhoquinhas marrom que aparecem sempre que chove e se encolhem quando são tocadas e se sentem ameaçadas. O tempo passou que eu nem senti.

- Mamãe, já acabou.

- O quê, filha?

- O filme, mãe. Pode me soltar.

Eu já te disse que ser sua mãe é bom demais, sua cabrita? É bom DEMAIS.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Patati Patatá

Era uma vez uma menininha que adorava uma dupla de palhaços coloridos com nome bem engraçadinho: Patati e Patatá. Ela ainda era uma bebezinha quando viu os dois na televisão, cantando e dançando. Num belo dia, quase três anos depois, a mamãe dessa garotinha linda, que trabalhava numa rádio chamada Clube, soube que ia receber a visita dos dois palhacinhos para uma entrevista muito legal.


Foto: Viviane Rolemberg

E adivinha quem apareceu no trabalho da mamãe no dia do super encontro com o Patati e o Patatá? A menininha. O nome dela era Helena. Nossa, ela estava toda feliz com seu vestidinho lilás e seus cabelinhos cacheados caindo sobre os ombros. O vovô Keko e Nenê também estiveram por lá. Todo o mundo ficou bem impressionado com o tamanho do Patati e do Patatá. Eram bem altos. E o sapato, bem grandão. Eles foram uns fofos. Conversaram, cantaram e tiraram muitas fotos. Pra garotinha nunca mais esquecer.

Foto: Viviane Rolemberg

Se você quer sorrir, é com Patati
Se você quer brincar, é com Patatá
Se você quer sorrir e brincar, Patati Patatá!
Se você quer sorrir e brincar, Patati Patatá!


Trazendo alegira, pra cada coração
Com muita energia, e muita emoção
Sempre na escola com os amigos a brincar
Quero ver você assim cantar!

Se você quer sorrir e brincar Patati Patatá!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

fim de férias

Faltam dois dias para a volta as aulas, filha. Depois de cinco semanas de longas férias. Logo que elas começaram, fiquei sem saber como eu e o papai conseguiríamos proporcionar momentos legais pra você porque a gente ia continuar trabalhando. Eu queria tanto ter tirado férias contigo. Pra gente poder se divertir por mais tempo. A gente fez o que pôde.

Posso dizer que seus dias foram marcados especialmente pela presença de muitos queridos.

Clarinha. Você conheceu esta fofa quando a gente morava no Edf. Maria Carolina, a sua segunda casinha depois da barriga da mamãe. Ela também nasceu em novembro. São poucos dias de diferença entre vocês duas. Você adora ela, filha. Eu também.

Um dia nestas férias ela foi passar uma tarde lá em casa. E quem disse que você deixou sua amiga ir embora (risos)? Você pediu tanto à tia Nice que ela acabou deixando Clarinha dormir lá com a gente. E mais um. E mais um. Três dias lindos, de muita amizade e brincadeira. Neste período, a sala, meu Deus, pareceu mesmo um grande salão de brinquedos. Bagunça total. E daí, né? Todo o mundo estava feliz. E é isso o que importa, você sabe.

Luana, sua prima. A gente se encontrou com ela no aniversário de dois anos de Felipinho na casa da tia Renata e da vovó Onilda. Queremos bem a esta sapequinha há muito tempo. Os dois anos de diferença entre vocês duas nunca atrapalharam. Convidei Luana pra dormir na nossa casa. Você ficou louca de alegria. A Tia Luciana deixou e o que era para ser um dia virou seis (risos).


Julho também foi mês de cinema. Toy Story 3! Você amou a história do Woody, da Jessie e do Buzz Lightyear. Porque fala de uma época linda e mostra como é bom ser criança, mesmo quando a idade vai passando. Um filme sobre brinquedos, brincadeiras e setimentos. No fundo, todo o mundo é um pouco Andy.



A experiência com Shrek Para Sempre em 3D também foi incrível. Não só pela sensação de ter o filme a um palmo da gente, mas por causa das lições que a história traz. O papai se emocionou. A gente sempre brincou dizendo que ele é o nosso Shrek. Eu, a Fiona. E você é a Felícia, a bebê ogro mais fofa do mundo.

Numa tarde, consegui sair cedo do trabalho. Encontrei você brincando no "L" com Nenê e todas as outras crianças do prédio.

- Mamãe querida, deixa eu entrar na piscina, vai...

Se tivesse lembrança, você saberia que aquela foi a sua melhor tarde. Primeiro, ficou ali, levantando a bermudinha e andando na parte rasa, com a maior cara de arteira. Depois, foi se agachando, se agachando, atér sentir a água geada da piscina tocar o seu bumbum. Então, ouvi o grito mais feliz destas férias. Melhor do que tomar um banho de piscina inesperado com roupa e tudo foi ver você tomando esse banho. Sua alegria cintilou naquelas águas.

Ainda teve a casa da vovó Raquel, as brincadeiras com os primos na casa da tia Rosana, as visitas à vovó Onilda, as tardes na casa de João Augusto, Malu e Mamá e nossos momentos a sós. Dias mais valiosos do que todas as pedras preciosas existentes na Terra.

"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe"
(Oscar Wilde)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

vento e areia

Princesas do Mar


Ontem, a praia de Boa Viagem foi nossa, filha. Toda nossa. Já era fim de tarde quando chegamos, eu e você. O mar estava secando. Tirei a toalha cinza da bolsa e forrei sobre a areia. Você já estava na beirinha. Catando as conchinhas, toda feliz. Tinham muitas, de tamanhos e cores variados. Peguei o pote de peixinho que o vovô te deu quando você ainda era bebê para servir como depósito.

- Ei, que tal se a gente fizer um super bolo decorado com as conchinhas?

- Êba!!!

Corre. Pega a pá. Cava, cava, cava. Junta a areia. Alisa o montão com cuidado.

Uma a uma, você foi colocando ali as conchinhas, em cima do bolo. De vez em quando, tentava tirar o cabelo do rosto por causa do vento forte, mas as mãozinhas cheias de areia não deixavam. Isso nem te perturbou.

- Filha, é um bolo para as Princesas do Mar. Polvina, Ester e Tubarina vão amar!

As Princesas do Mar é um desenho do Discovery Kids que você adora. O trio de amigas vive se aventurando pelas águas do oceano. Sua preferida é a Polvina, a cor de rosa.

- Mamãe, como elas vão comer o bolo se ele não está dentro da água?

Foi quando pela primeira vez te expliquei sobre a tábua de marés.

- É que agora a maré está baixinha, mas daqui a pouco o mar vai começar a encher de novo e chegará até aqui.

- Mas, mamãe, as Princesas do Mar são só da imaginação...

- E daí? Elas também podem comer só na imaginação também, não é?

Nessa hora, a praia ganhou mais uma companhia - e não foram as princesas... Foi o papai! Todo engomadinho ainda na roupa do trabalho. Com aquela cara de bobão apaixonado pela gente. Você molhou nosso rei todinho, filha! Que abração!

E ficamos ali, a família feliz, vivendo o início da noite com o barulho do mar e o beijo do vento.

Antes de deixar a areia pra tomar água de coco e comer pipoca doce, você pediu um minutinho a mais. E recolheu as conchas do bolo de areia para jogá-las de volta ao mar.

- É lá o lugar delas, mamãe.

terça-feira, 20 de julho de 2010

yellow submarine



Tem músicas, Helena, que são imortais. Grupos que são imortais. Artistas tão talentosos e cativantes que permanecem vivos mesmo depois de terem partido rumo a outros tempos e lugares. Os Beatles. Eles são eternos. Poderia ter sido mais uma banda de rock britânica da década de 60. Em vez disso, foi a banda. John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Star conquistaram o mundo e infinitas gerações.

Os Beatles tiveram mais álbuns no topo das paradas britânicas do que qualquer outro ato musical. De acordo com a RIAA, eles venderam mais álbuns nos Estados Unidos do que qualquer outro artista. Já foram honrados com sete Grammy Awards, e quinze Ivor Novello Awards da BASCA. Já venderam mais de um bilhão de discos.

Em 1970, quando a banda chegou ao fim, cada músico seguiu para uma carreira independente. Paul McCartney e Ringo Starr continuam ativos; Lennon foi baleado e morto em 1980, e Harrison morreu de câncer em 2001.

Aprendi a gostar dos Beatles quando me interessei por um álbum de seu avô ainda criança. Tinha uns 9 anos. Fiquei hipnotizada com “Help”. Depois, tive um namoradinho que adorava a banda e com ele acabei conhecendo mais sobre o grupo. Depois, já na época da faculdade, estudei com Sofia Zanforlin, amiga querida até hoje. Ela adorava a banda. Quando íamos à faculdade juntas, o caminho percorrido parecia menor só porque os Beatles ajudavam a gente a ver graça naquelas horas perdidas no trânsito.

Tenho no carro um CD com algumas músicas deles. Gosto de todas e canto a maioria. As que falam de amor tocam profundamente. São as minhas preferidas.

E não é que os Beatles ganharam mais uma fãzoca? Uma fãzoca-mirim: você, filha!

- Mamãe, eu quero Yellow Submarine!

É a sua preferida, amor. Yellow Submarine. “We all live in a yellow submarine, yellow submarine, yellow submarine// We all live in a yellow submarine, yellow submarine, yellow submarine”. Você adora cantar. Já devo ter ouvido umas 637 vezes, mas não enjôo nadinha. Ao contrário. O submarino amarelo tem cada vez mais graça.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

brasil, brasil!


Sua primeira Copa do Mundo, filha! O Brasil inteiro virou uma só torcida. O país está coberto de verde e amarelo para ver nossos jogadores brilharem em solo africando. Sim, Lelê, a Copa do Mundo de 2010 está sendo realizada na África do Sul. Todos os continentes estão voltados para um país marcado por uma série de desigualdades, mas perito em viver a vida. Aquela gente está sempre com um sorriso no rosto e embalada por danças ricas e muito ritmadas.

Nosso primeiro jogo foi contra a seleção da Coreia do Norte. Assistimos à estreia do Brasil na casa da tia Baioca, com tio Léo, Malu e Rafa. Por lá, estavam também tia Ruth e tio Almir, com os filhos Marcelinha e Guilherme. Tão legal ver todo o mundo vestido com as cores da nossa bandeira.

16 dias já se passaram e depois de vencer a Costa do Marfim e a Coreia do Norte e empatar com Portugal agora estamos nas quartas-de-final, prontos para um jogo que promete ser emocionante, amanhã, contra a Holanda. Se der tudo certo, seguimos em frente na luta pelo hexacampeonato. Meu placar? 3x1. Será? Tchan, tchan, tchan, tchan...


quinta-feira, 24 de junho de 2010

vermelho e azul


Terceiro São João. Um passeio pelas tradições de todas as regiões brasileiras. No comunicado grampeado na sua agenda escolar, o aviso: confeccionar saia comprida de chita, com fundo vermelho ou azul e camisa branca com babado. A apresentação da sua turminha seria uma homenagem aos festejos juninos do norte do país. Fiquei tão curiosa.

Uma semana depois, você deu uma dica:

- Mamãe, sabia que eu conheço o Boi Caprichoso e o Boi Garantido?

E o seu pai, com uma pitada de desafio, perguntou:

- E a senhorita sabe onde eles moram, por acaso?

- Na "Amazônica", papai!

Linda. Linda, sapeca e tão esperta.

Sua roupa, que fizemos na mesma costureira de todas as outras amigas, ficou uma graça. A tia Carla, mãe da Mamá, deixou numa sacola embaixo do nosso prédio. A blusa ficou meio pequena, a saia, bastante grande. Mas a costureira corrigiu tudo rapidinho.

-Ô, mamãe, essa roupa "pica".

- "Pica", mas você vai ter que se acostumar, filha. Chita é assim mesmo. Paciência.

No dia da festinha, você estava linda! Tiramos tantas fotos. Dia desses, a tia Baioca riu de mim porque viu nas fotografias que eu fiz uma pinta do lado esquerdo do teu queixo.

- Viviane, quem tem pinta no queixo são as bruxinhas. A pinta das matutas é em cima da boca, num cantinho, menina!

Lelê, nenhuma narrativa vai refletir exatamente o show que você deu no palco, cantando e dançando com seus amigos e amigas. Um lenço vermelho preso no dedinho de uma mão. O azul, no dedinho da outra.

Quase todo o mundo estava lá. Eu, seu papai, a vovó Raquel, Nenê, tia Rosana, tio Beto, tia Ana e João Vinícius, de matuto. O vovô Keko, pouco afeito a essas festas, não foi, mas ficou todo bobo quando a vovó contou como foi. A tia Lalau estava no trabalho, mas queria muito ter ido. Vovó Onilda não foi porque sempre fica com "dor de barriga" quando se imagina num lugar assim tão cheio de gente. E a tia Renata e o tio Renilson estavam na faculdade.

Fomos os últimos a ir embora, sabia? Depois das apresentações, você voltou ao palco - e não quis mais descer dele. Little star.

"Porque o que se leva dessa vida, coração, é o amor que a gente tem pra dar/Oi, tum, tum, bate coração, oi, tum, coração pode bater/Oi, tum, tum, tum, bate coração, oi, tum, que eu morro de amor com muito prazer" (Elba Ramalho)

quinta-feira, 3 de junho de 2010

muito prazer, Brennand


foto: Google
Tantas histórias foram construídas durante este período de abstenção virtual. Faltou tempo para postar.

Recebi esta semana, filha, as fotos do seu passeio à Oficina Cerâmica Francisco Brennand, no bairro da Várzea. Você está linda, sorrindo em todas as fotos. Numa delas, um dos braços está levantado, com a mãozinha quebrada, como quem diz com orgulho: “estou aqui!”.

Lembro do primeiro comentário que você fez quando cheguei do trabalho: “Mamãe ele nem estava lá...”. Você estava louca pra conhecer pessoalmente o Francisco. Falaram tanto dele na escola, né, filha? Acho que este grande artista plástico ficaria comovido com a exposição de esculturas que você e seus amigos fizeram com a ajuda da tia Lu, da tia Duda e da tia Andréa.

A arte é mesmo algo fenomenal. Representa o exercício do ser humano de mergulhar na profundeza dos sentimentos, sensações e impressões. É um jogo de cores, formas e dimensões infinito. Lindo de ver e explorar.

Fico feliz de ter escolhido uma escola comprometida também com a arte. A sua escultura ficou linda e hoje decora o criado mudo do nosso quarto – meu e do papai. Linda. Te amo.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

cicatriz

No meio do caminho, tinha um túnel.

Lelê estava no Bode, aqui mesmo de Boa Viagem, onde instalaram há pouco tempo um brinquedão que faz a alegria dos pequenos, mas não a minha. Foi no último sábado. A linda, como sempre, estava repleta de alegria, correndo pra lá e pra cá. Ela adora quando a gente brinca de pega-pega. Eu já tinha levantado umas mil vezes para correr atrás dela. Aquela era a última. Depois, a gente ia comprar sorvete na banquinha.

Não rolou banquinha. Descontroladamente animada, a fofa não se abaixou o suficiente para passar pelo túnel de plástico do brinquedão. Foi com a testa em cheio no alto. Quando virou pra mim já prestes a entrar no choro, só vi a gordurinha branca dando sinal de que a coisa não tinha sido bobagem. Fiquei cega.

Não sei como não atropelei nenhuma criança ao resgatar minha Lê. Sozinho na mesa, Eduardo perdeu a cor quando viu o sangue correr pelo rosto dela. Guardanapo para estancar o sangue. Não! Gelo. Não! Eu queria uma fralda, que apareceu sei lá de onde.

O carro estava na garagem do nosso prédio, tão perto do Bode. Naquele sábado, parecia do outro lado da cidade. Corri de quase perder o fôlego carregando Lelê. Eduardo mais à frente.

Chega ao prédio. Entra no carro. Dá a partida. Raspa com a lateral na pilastra. Santa Joana. Antes, uma parada para pegar a tia Lalau. Precisava de alguém calmo para ajudar a gente.

Segunda parte. Quatro pontos na testa.

Foi em meio a pedidos desesperados de "me salva, mamãe" e "me leva para a nossa casinha" que o procedimento foi feito.

- Deixa eu falar, doutor. Tá tudo bem. Já passou. Não quero costurar a testinha.

- Eu quero vomitar. Deixa eu vomitar!

- Quero fazer cocô. Vou fazer cocô.

Então, Lara levou a pequenina pra fazer cocô. Dois minutos e nada.

- Titia, o cocô não sai. Acho que eu tô nervosinha, titia.

Não teve jeito. Deitada na cama, um segurou os joelhos, o outro os braços e uma enfermeira, a cabeça. Três picadas de anestesia. Aí, gritou pelos primos.

- Pepeu, cadê você??? Guigui, me salva!

...

Dois dias se passaram. Os pontos estão sequinhos. Com um certo custo, fiz ontem o primeiro curativo. Daqui a uma semana vamos voltar ao hospital para retirar os famigerados pontos. O médico já advertiu: vai ser novamente uma odisséia.

domingo, 4 de outubro de 2009

a primeira bike


Começou com uma Hello Kitty que nós compramos na praia. Depois foi um porquinho. Ambos de barro. No início, entravam moedas de todo tipo, até de cinco centavos. Então, resolvi ficar mais rigorosa para não ocupar espaço com pequenos valores. Venceram as de 25, 50 e 1. E já estava resolvido: seriam para o presente do Dia das Crianças.

Ontem foi o dia de quebrar os dois. Estavam bem pesados.

- Pra mim não tem mais que R$ 50, disse Nenê.

- Tem menos de R$ 100,00, arriscou Eduardo.

Eu chutei R$ 120,00. Como o martelo de Edu estava difícil de achar, a solução foi improvisar com o martelo de bater carne. Um ritual para todos nós, crianças assim como Helena naquele momento de expectativa. Ao se partir em pedacinhos com a força de nosso golpe conjunto, meu e de Lê, o porquinho pareceu um grande baú de tesouro. Moedas reluzentes. Muitas, muitas. Pra gente, elas valeram muito mais do que valeriam pra qualquer outra pessoa. Fui separando por grupo. Lelê participando ativamente. Edu comendo um sanduíche sentado no sofá, mas envolvido pelo clima lúdico que remete à infância de todos nós. Nenê na cozinha, impressionada com a chuva de pratas.

Vocês não têm noção. Havia R$ 205.00! Afe! Parecia uma mega-sena, sabe? Muito engraçado tudo isso, mas parecia mesmo.

A primeira bicicleta de Lelêca tem uma história legal que a nossa própria filhota ajudou a construir cada vez que depositava moedas em seu porquinho. É especial. Tudo é.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

despertador


É assim todo dia. Dá 6:30 e eu sinto um pitôco puxando o dedão do meu pé. Então, ela vai se chegando, se chegando e se joga entre mim e Edu. Se agarra com o pescoço da gente. Enfia o rosto no nosso cangote. Entrelaça a própria perna na perna de um de nós como uma cobra inquieta. Semana passada, como sempre, foi assim também. Preguiça gostosa de sentir. Desejo danado de que fosse uma hora a menos para que pudéssemos estender por mais tempo todo aquele puxa-encolhe.

Ela estava mais grudada no pai naquela manhã. Os dois são a corda e a caneca. Se embrulham embaixo do lençol, se retorcem que nem um caracol e dão início às manhãs a uma velocidade de 10 km/h. Naquela manhã, até eu estava meio devagarinho. Ainda entre o dormir e o acordar, mas com os ouvidos a postos para testemunhar a declaração de amor gratuita sussurrada no pé do ouvido do pai por nossa Lelê. As mãos miúdas na bochecha dele:

- Papai, eu te amo desde pequenininha.

Ele acordou na hora.

Tem coisas que são a cara deles. Fazer cabaninha (às vezes ela fala “caverninha”) com o lençol ou se esconder debaixo dele, sempre deixando um pé ou um braço à mostra:

- Vem procurar a gente, mamãe!

Passar horas vendo televisão. Coisa mais chata. Mas eles adoram. E morrem de felicidade quando estão juntos a ver desenhos como “Aby Cadaby”.

Tomar sorvete. Edu, uma banana split devorada em três minutos. Helena, uma bola de sorvete de chocolate que acaba virando água porque ela prefere correr e brincar de se pendurar num corrimão da sorveteria. Aí, eu acabo tomando aquela coisa já sem graça, mas com um sabor único.

É bom demais.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Laiá, laiá

Já estou esperando o próximo São João. Pra ser ainda melhor do que o deste ano. Adoro muito festas. Festas de qualquer tipo. Batizado, chá de panela, aniversário de qualquer idade, primeira comunhão, casamento, carnaval.

E este São João vai ficar marcado por vários motivos. A música eleita por Helena:

"Tenho um segredo, menina
Cá dentro do peito
Que a noite passada
Quase que sem jeito
Pela madrugada
Ia revelar"

É aquela do refrão:

"Sem hesitar
Laiá, laiá
Laiá, laiá
Laiá, laiá-a"

Era meio-dia. A gente estava saindo do carro, já na garagem do prédio. Aí eu ouvi uma musiquinha de São João passar por perto e ir se distanciando. Coisa tão boazinha de se ouvir. Agarrei Helena pelos braços e fui pra rua. Dei um gritou e o moço me ouviu. Acabei com dois cd's - o de uma banda de pífanos tocando clássicos do São João apenas com os instrumentos e um disco com as melhores de Luiz Gonzaga.

O São João foi massa. Mais pelo arraial que eu improvisei algumas noites de junho no meio da sala do que pelas festas propriamente ditas. Dançamos e dançamos e dançamos.

Na Vila Aprendiz, a apresentação da nossa "farofinha" me fez chorar - que novidade, né?. Samba Lelê foi a música. Nem acreditei quando soube. É a música dela. Vestido de São João, chocalho na mão e a coreografia na ponta do pé. Coisa mais linda.

A festa junina do Boa Viagem, onde os primos estudam, também foi maravilhosa. Uma banda de forró ao vivo me fez relembrar grandes festas da minha infância. E como Helena dançou! Como se divertiu!

Teve também um forró de uma distribuidora de medicamentos (Hospfar) na Cachaçaria Carvalheira, mas pra esta fomos só eu e Edu. Dançamos a quadrilha, coisa que eu não fazia há muitos e muitos anos. Amei: balancê, passeio na roça, a chuva, a fotografia, a cobra, o túnel. Amei. E quero morrer vendo graça em tudo isso.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Dia dos Pais

Helena, Edu e a furadeira que ele ainda não tinha
Estávamos os três ansiosos pela chegada do Dia dos Pais. É que o Dia das Mães foi muito bom e havia planos e expectativas para mais uma data. A gente gosta. A gente valoriza mesmo. Pena que Edu viajou pra São Paulo justamente na semana anterior ao domingo dos pais. Eu sabia que Lelêca faria na escola lembrancinhas todos os dias. Resolvi que iria deixá-las grudadas nos imãs da geladeira. Teve uma gravatinha de papelão azul marinho pintadinha com cola colorida vermelha e amarela. Teve um porta-retrato feito na aula de inglês com palitinhos de picolé. Um quadrinho com a mão da nossa pequena espalmada em tinta verde bem no meio. E o melhor de todos: um aviso para pendurar na porta do quarto com a seguinte mensagem: “Pare. Papai está dormindo”.

No início da semana, a escola havia pedido para que fosse enviada uma foto dos pais com seus filhos. Só descobri o porquê quando cheguei na quinta-feira para pegar Helena na escola. As fotos estavam coladas numa das paredes da sala. Ao lado de cada uma, palavras ditas pelas crianças e escritas por tia Mirela num coração de papel vermelho. Uma dizia: “Papai é lindo. Vou dar uma calça para ele de presente”. Outra: “Meu pai é legal. No Dia dos Pais, quero dar um carrão pra ele”. A frase de Helena: “Papai é comilão. Domingo, vou dar pratinho, garfinho, copinho e muitos doces para ele”. Não agüentei e dei uma gargalhada. Nem me pergunte de onde ela tirou isso que eu não sei. A única coisa que eu sei é que Edu ficou arrasado e passou a malhar mais a partir de então.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

o dia


Era sexta-feira, 25 de abril. Logo que chegamos à escola, as professoras dirigiram as crianças para a sala multifuncional no primeiro andar. Pediram que nós sentássemos no pátio onde os pequenos fazem o lanche. Não demorou muito e a cozinheira chegou na minha frente. Ela estava distribuindo guardanapos de papel. Peguei um, mas seria insuficiente. Peguei outro. Então, do primeiro andar, em fila indiana e de mãos dadas, eles começaram a descer a rampa. Cada um com um blusão branco pintado por eles mesmos com a mensagem: "Mamãe, fui eu quem fiz". Uma rosa nas mãos. E a música:

Eu estou pensando em você.
Pensando em nunca mais
Pensar em te esquecer
Pois quando penso em você
É quando não me sinto só

Com minhas letras e canções
Com o perfume das manhãs
Com a chuva dos verões
Com o desenho das maçãs
E com você me sinto bem

Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer
Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer.

Não deu pra segurar. Ela estava linda. A camisa branca maior do que ela. Os cabelos cacheados, de lado. Os olhos acelerados, a me procurar.

Eu já chorava sem parar. O coração embrulhado em turbilhões de sentimentos. E a curta história de vida da nossa doçura a percorrer em imagens, sons, cheiros e poesia a minha mente.

De repente, nossos olhares se encontraram. "Pra você, mamãe! Pra você!".

Ganhei a blusa e a rosa. Acima disto, o mais arrebatador dos abraços.


Sou eu quem nunca mais vai esquecer, Helena. Nunca, nunca mais.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

abc


Cheguei em casa ontem um pouco mais cedo do que de costume, mas Edu já tinha saído para a faculdade. Ele está perto de terminar o MBA dele em marketing.

Primeira coisa que tenho feito assim que piso no meu doce lar é correr para o banheiro. Eu não tenho tido tempo de fazer xixi em outra hora.

Helena já entendeu isso e aceita, a bela.

A segunda coisa que faço, tendo ou não feito xixi, é lavar as mãos. Hábito da mãe de primeira viagem que lavava as mãos para qualquer coisa quando tinha em casa ainda aquela bebezinha - hoje uma garota levada e linda.

Depois disso, me sinto à vontade para mergulhar no sofá com a filhota e conversar e conversar e conversar. Pergunto como foi o dia dela, quem ela encontrou no P1, o que lanchou e por aí vai.
Perguntei também se Edu já tinha saído pra faculdade. E ela, bem certa do que falava, e levantando as mãozinhas no gesto típico de quando quer explicar alguma coisa, respondeu:

- Saiu sim, mamãe. Foi aprender o abc.