segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

de porta e coração abertos



Estava na academia, amor, andando rápido na esteira e tentando chegar aos 5 km de caminhada. Na frente das máquinas, televisão ligada na Globo. Era Ana Maria Braga com uma mensagem que me comoveu e me pôs para dentro de mim mesma. Que me fez lembrar de sua tia Rosana, seu tio Lúcio e seus primos - que estão dentro de mim também. Pensei no período de dificuldade que trouxe sofrimento e lágrimas, mas que também fez brotar mais amor e união entre eles e nós.

Nos últimos meses, nossa casa virou um casarão cheio de gente. E coube todo mundo. Sem dor. Sem peso. Sem fardo. Demos as mãos uns aos outros. Colamos nossos corações e transformamos nove em um só. Gigante.

Crescemos. Na divisão que multiplicou. Foi na casa mais docemente barulhenta e naturalmente desarrumada que construímos juntos mais história e mais sentido para a vida.

Tá aqui a mensagem que tem tudo a ver com o nosso lar:

Casa arrumada é assim: um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz. Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela. Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas... Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:

Aqui tem vida...

Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar. Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha. Sofá sem mancha? Tapete sem fio puxado? Mesa sem marca de copo? Tá na cara que é casa sem festa. E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.

Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde. Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto... Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda. A que está sempre pronta pros amigos, filhos... Netos, pros vizinhos... E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.  Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.

Arrume a sua casa todos os dias... Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela... E reconhecer nela o seu lugar.


* Texto de Lena Gino

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Estamos em pleno período natalino, baby, e nesta época todos costumam se reunir para celebrar a vida. Há quem ache tudo falsidade, mas não é, não. É a celebração da vida e da família, mesmo com todas as diferenças e perrengues - quando o AMOR fala mais alto.


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Muribeca

A Muribeca fica em Jaboatão dos Guararapes,viu?

Sua curiosidade sobre as pessoas nunca te deixa em paz, filha. Frequentemente, você escolhe alguém a esmo e se põe a fazer um questionário sobre a vida do cidadão: onde mora, o nome da rua, o andar, a idade. É no banco, na fila para pagar o estacionamento do shopping, no elevador, na padaria.

A última vítima você fisgou hoje, nos Correios.
 
- Oi, qual o seu nome?

- Marcelo.

- Onde você mora?

- Na Muribeca.

Você parou, pensou um pouquinho, fez uma caretinha e continuou:

- Muribeca? É longeeeeeee, longeeeeeeee...

Depois disso, o homem também fez uma caretinha e se fechou.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

estátuas vivas

Porto de Galinhas. Fim de tarde. Ali, no meio da rua, um homem com roupa de anjo e pintado de branco chamou a atenção de Helena.

- Mamãe, olha essa estátua.

Expliquei que aquele era um artista de rua que ficava assim, parado, até que alguém depositasse moedas em seu jarrinho.

Tirei um real da bolsa em três moedas, de R$0,25 e R$0,50. Ela, então, foi colocando o dinheiro no jarrinho e se surpreendendo com os movimentos suaves e gentis do homem-anjo-estátua que lhe estendeu a mão devagarzinho. Foi legal e quase romântico, se não fosse o comentário dela depois:

- Agora que já terminou, mãe, posso pegar as moedas de volta?

doce moeda



De Pedro, 3 anos e 5 meses, para Helena, 4 anos:

- Helena, me dá uma moeda de chocolate?

De Helena para Pedro:

- Não, Pedro, porque eu já peguei nelas e agora todas estão com germes. Você não vai querer, né?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Padaria


Eu redescobri a Carmem Delicatessen. Fui lá esta semana e parecia que eu estava numa vernissage de obras primas feitas de açúcar e creme. Agora, quero estar lá todos os dias. Helena também.

- Mãe, quando a gente vai de novo na Carmem Delicadeza?

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

viva de verdade


Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo o que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

Não é que a fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance. Para as coisas que não podem ser mudadas, resta-nos somente paciência. Porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros, há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

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Nunca desista de seus sonhos, Helena. Acredite na sua capacidade de superação, valorize seus objetivos, trabalhe para alcançá-los. Ultrapasse o "quase". Não se acostume a ele. Siga em frente. De coração aberto e alma elevada. Te amo. Amor da minha vida.

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(Dizem que quem escreveu este texto fabuloso, filha, foi Luís Fernando Veríssimo, que eu adoro, mas ele mesmo diz que foi Sarah Westphal Batista da Silva, colunista de O Globo, em 2005)