sexta-feira, 24 de setembro de 2010

bullying


Quero dar um abraço demorado em Márcia

Eu devia ter uns sete anos. E no sexto andar do meu prédio morava uma menina que tinha a minha idade. Ela tinha outros dois irmãos e morava apenas com a mãe.  Algum tempo depois, foi morar em outro prédio e nunca mais encontrei de novo.

Várias vezes ao longo desse tempo eu me lembrei dela. E várias vezes também fui tomada por um sentimento de remorso horroroso por causa de coisas feias que fiz naquela época junto com outros amigos do prédio. Seria reconfortante poder encontrá-la de novo pra pedir desculpas - e tirar do peito um peso verdadeiramente "pesado".

Ela era loirinha, e tinha os cabelos crespos, volumosos. Só por isso - e por nenhuma outra coisa mais - judiávamos dela. Chamávamos de medusa. Desprezávamos. Briguei com ela inúmeras vezes, de graça. Pratiquei bullying. Justo eu, irmã de um garoto gordinho que sofria horrores nas mãos dos colegas da escola e do prédio, especialmente.

Nunca esqueci a Márcia*.

"Foi coisa de criança" não é argumento para justificar atitudes grosseiras e desumanas. Me pergunto onde estavam os adultos das nossas vidas para permitirem este tipo de comportamento. Não admito, não concordo, não acho graça.

Pensamento forte é dose. Deve ter sido isso. Tão forte que me levou a ela. Encontrei Márcia esta semana no mundo virtual. E voltei a ter sete anos. E tive vergonha do meu comportamento. E pedi desculpas. E implorei para ser perdoada. E fui. E comemorei.

Mas ainda não passou. Preciso encontrar Márcia pessoalmente. Dar um abraço. Chorar por tudo aquilo. Porque ela me perdoou, mas eu ainda não me perdoei.

O remorso é a única dor da alma, que nem a reflexão nem o tempo atenuam.
(Madame de Stael)

* Márcia é um nome fictício. Preferi assim.

2 comentários:

  1. pois é, também não acho a menor graça. Essa frase "coisa de criança" sempre povoou as desculpas dos pais daqueles que também me encheram de apelidos. Eu, como seu irmão,sempre fui gordinha e sempre tive toda sorte de apelidos horrendos, que me impediram, inclusive, de fazer amizades de infância... Já que, por ser alvo das brincadeiras, muitos não se aproximavam tanto de mim, já para não receber também apelidos. Não quero que Joãozinho, um dia, faça isso com alguém. Farei o possível para que ele nunca aja assim, mesmo sabendo que é difícil. E se ele sofrer com isso, também não fingirei que nada acontece. Isso é o que muitos pais fazem, infelizmente.

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  2. Esse texto tb me lembra muito meu passado...Fui sempre e sou até hj gordinha e tinha inúmeros apelidos, escutava muitas gracinhas, brincadeiras sem graça e risos... O tempo passou e hj muitos deles se tornaram meus clientes, e me dizem coisas lindas, comentam do passado...hj sou muito felizzzz com o dom que Deus me deu, e no meu coração não existe mágoas...Parabéns por sua atitude querida, nunca é tarde para reconhermos os nossos erros!bjos!

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