Ela tinha um problema sério. Comprava muito mais comida do que a quantidade de que precisava. E adorava promoções. Não resistia a nenhum tipo de alimento que estivesse anunciado com preço mais baixo. Lotava a geladeira, o balcão da cozinha, a mesa da sala, o assento das cadeiras, o sofá e todo e qualquer canto da casa onde houvesse espaço. Era tanta comida na geladeira e congelador que a mulher usava fita adesiva para fechar a porta. Caldos de cores e cheiros esquisitos pingavam, restos de comida a escorrer pelas prateleiras geladas. Alimentos com um, dois anos vencidos, e abóbora, queijos e maçãs apodrecidos só faziam a alegria das moscas mesmo. Eram muitas - assim como a quantidade de gatos. A desorganização daquela senhora era outra característica de assustar. A pia da cozinha tinha pratos sujos há mais de sete dias. Copos se acumulavam no chão. Tralhas, roupas, eletrodomésticos e eletroeletrônicos: tudo era entulho, jogado de qualquer forma, em qualquer lugar, até no banheiro. Algo estava errado, mas só ela não percebia.
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| Tem gente que acha que pode ocupar o vazio que carrega no coração com bens materiais. Não é nada disso. |
Existem pessoas cujo trabalho é ajudar outras mais desorganizadas a pôr ordem na casa. E você não imagina a dificuldade que tanto a velhinha quanto o casal tiveram de se desfazer de todo aquele lixo que já não prestava mais para nada. Mesmo quebrados ou inúteis, os objetos ainda significavam muito para eles.
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| A gente deve colecionar amigos, boas ações e momentos, mas não isso. |
E veja que curioso, filha. Quando abro hoje o meu e-mail, encontro uma mensagem de tia Rosana com uma história pra fazer a gente pensar justamente no que de fato deve ser valorizado nesta vida. E tenha certeza, não é nada daquilo que podemos comprar. Deixar de lado o zelo excessivo por coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar. Pensa nisso. Te amo.
VENDE-SE TUDO
(Martha Medeiros)
No mural do colégio da minha filha encontrei um cartaz escrito por uma mãe, avisando que estava vendendo tudo o que ela tinha em casa, pois a família voltaria a morar nos EstadosUnidos.
O cartaz dava o endereço do bazar e o horário de atendimento. Uma outra mãe, ao meu lado, comentou:
- Que coisa triste ter que vender tudo que se tem.
- Não é não, respondi, já passei por isso e é uma lição de vida.
Morei uma época no Chile e, na hora de voltar ao Brasil, trouxe comigo apenas umas poucas gravuras, uns livros e uns tapetes. O resto vendi tudo, e por tudo entenda-se: fogão, camas, louça, liquidificador, sala de jantar, aparelho de som, tudo o que compõe uma casa.
Como eu não conhecia muita gente na cidade, meu marido anunciou o bazar no seu local de trabalho e esperamos sentados que alguém aparecesse. Sentados no chão. O sofá foi o primeiro que se foi. Às vezes o interfone tocava às 11 da noite e era alguém que tinha ouvido comentar que ali estava se vendendo uma estante.
Eu convidava pra subir e em dez minutos negociávamos um belo desconto. Além disso, eu sempre dava um abridor de vinho ou um saleiro de brinde, e lá se iam meus móveis e minhas bugigangas. Um troço maluco: estranhos entravam na minha casa e desfalcavam o meu lar, que a cada dia ficava mais nu, mais sem alma.
No penúltimo dia, ficamos só com o colchão no chão, a geladeira e a tevê. No último, só com o colchão, que o zelador comprou e, compreensivo, topou esperar a gente ir embora antes de buscar. Ganhou de brinde os travesseiros..
Guardo esses últimos dias no Chile como o momento da minha vida em que aprendi a irrelevância de quase tudo o que é material. Nunca mais me apeguei a nada que não tivesse valor afetivo. Deixei de lado o zelo excessivo por coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar.
Hoje me desfaço com facilidade de objetos, enquanto que se torna cada vez mais difícil me afastar de pessoas que são ou foram importantes, não importa o tempo que estiveram presentes na minha vida..
Desejo para essa mulher que está vendendo suas coisas para voltar aos Estados Unidos a mesma emoção que tive na minha última noite no Chile. Dormimos no mesmo colchão, eu, meu marido e minha filha, que na época tinha 2 anos de idade. As roupas já estavam guardadas nas malas. Fazia muito frio.
Ao acordarmos, uma vizinha simpática nos ofereceu o café da manhã, já que não tínhamos nem uma xícara em casa.
Fomos embora carregando apenas o que havíamos vivido, levando as emoções todas: nenhuma recordação foi vendida ou entregue como brinde. Não pagamos excesso de bagagem e chegamos aqui com outro tipo de leveza.
... só possuímos na vida o que dela pudermos levar ao partir.



















































