quinta-feira, 19 de agosto de 2010

audição e olfato

Ontem eu descobri que você adora o cheiro da gasolina, sua pirrôta. E você falou de um jeito tão natural e inesperado que acabei dando a gargalhada que me valeu o dia. Foi num posto de combustível pertinho da nossa casa.

Claro que você não se contentou em esperar muito quieta pelo abastecimento. Quis sair pra ver como o carro é abastecido. Esticou tanto a cabeça pra ver melhor a gasolina jorrando que o frentista alertou uma vez:

- Cuidado. O cheiro é muito forte.

O compartimento da frente do veículo, ali juntinho do motor, também estava vazio. Acompanhamos o moço. Ali, ele foi colocando devagarzinho para não esborrar. E você, quase se desvencilhando dos meus braços e se esticando pra ver mais de perto.

- Cuidado. O cheiro é muito forte.

Contrariando o alerta, você respirou profundamente, enchendo o pulmãozinho de ar. E revelou:

- Eu adorei esse cheiro, mamãe.

O perfume das coisas tem um poder danado, Lê. Eu mesma tenho um creme pra passar nos pés com aroma de castanha. É um cheiro igualzinho ao que eu já senti um dia, muitos, muitos, muitos anos atrás. Não sei exatamente quando e como. Mas traz uma sensação de bem-estar tão gostosa. Nunca consegui enjoar desse cheiro.


O hidratante mágico

Gofo de bebês. Também adoro. Nenhuma mamãe de nenhum bebê que gofar em mim precisa pedir desculpas. Aquele azedinho me remete a você recém-nascida, no meu colo, esperando pra arrotar depois de uma bela mamada. Às vezes, vinha só arroto. Outras, aquela gofada que só eu achava um poema.

Música também desperta na gente o mesmo sentimento. Dia desses eu estava ouvindo Cama e Mesa, de Roberto Carlos, que a gente costuma dizer que é o "Rei" da música romântica brasileira.

Eu quero ser seu travesseiro/ E ter a noite inteira/ Pra te beijar durante o tempo que você dormir/ Eu quero ser o sol que entra no seu quarto adentro/ Te acordar devagarinho/ Te fazer sorrir...


Meu Deus, Helena, ouvir essa música é voltar no tempo em que eu tinha no máximo cinco anos. Vejo uma grande "loja de discos", com pé direito (altura) alto, numa esquina que me parece ser a de alguma rua do Centro do Recife.  Vovô e vovó estão lá também. A loja é cor de rosa e tem capas de "LP's" espalhadas pelas paredes. Na "radiola", toca Cama e Mesa. Parece um sábado pela manhã.


A capa do "disco" do Roberto Carlos
 que o vovô e a vovó compraram naquele dia

Chuva de Prata, de Gal Costa.


Ouça a chuva mais vezes, amor. Dê voz a ela.

Chuva de prata que cai sem parar/ Quase me mata de tanto esperar/ Um beijo molhado de luz sela o nosso amor./ Toda vez que o amor disser 'vem comigo'/ Vai sem medo de se arrepender/ Você deve acreditar no que eu digo/ Pode ir fundo / Isso é que é viver...

Agora estou em Natal, no Rio Grande do Norte. Estou na porta da casa de Tia Preta, tia da tia Karol, olhando a chuva que cai fina sobre o jardim. Sinto gosto de farinha láctea na boca. É um domingo de manhã e todos devem estar dormindo. Menos eu. O momento é de paz.

Memórias. Passagens. Sentimentos. O nome disso é história. 

8 comentários:

  1. A história desses momentos é o que fica, é também o que levamos das nossas vidas. Enfim, é o essencial...

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  2. Esse texto é igual ao cheiro da chuva batendo na terra quente. Um dos meus cheiros favoritos.

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  3. Vcs são demais e Vive suas recordações são tudo de bom e lindas.Sou tão feliz por ser sua mãe e avó de LE^que todos os dias agradeço a Deus por tudo isso!

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  4. Amiga querida!

    Que felicidade poder compatilhar com vocês o crescimento e as descobertas de Helena. Tú sabe o quanto eu gosto dela né? Melhor... ela mesma já sabe! Adorei o blog, as cores e este último post. Identificação total com Lelê porque também amo cheiro de gasolina...
    Bjs
    Cata

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  5. Amigaaaaaaaaaaaa, simplesmente amei o blog, tudo de bom viu... vou te contratar p/ fazer um p/ mim kkkkk.É tão bom relembrar o passado ne!! As vezes me pego lembrando da época de colégio... das nossas farras, da cultura inglesa, das nossas aventuras mais insanas kkkk foi bom demais aquele tempo... Não posso nem ouvir sweet dreams ne!!! Amiga,eu tenho tanto p/ te falar...
    Continue escrevendo essas histórias lindas sobre a Helena,afinal só de coisas boas vividas é que costumamos nos recordar não é? Bjos e Saudades...

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  6. Vivi, sinto que não apenas eu mas, outras pessoas também se identificaram com os textos que você escreve neste blog. É o poder das lembranças que tocam o nosso interior de tal forma que mesmo que não sejam extamente iguais as suas, acabam nos remetendo as nossas próprias lembranças da época de criança, de travessuras, inocência, alegrias e paz. Virei fã dos seus textos. Espero um dia vê-los publicados em forma de livro. Felicidades para a fofinha da Helena que ela continue inspirando você a escrever estes belos textos. Bjs., Constança - Diario de Pernambuco

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  7. Vi, maravilhoso vai ser qnd Lelê entender e puder ler tudo isso... esta lindo, e realmente as nossas "memorias infantis" são assim mesmo ne, as vezes a gente nem sabe direito o que aquele cheirinho nos remete, mas nos trazem uma sensação maravilhosa que parece que levam a gente de volta ao passado... parabéns amiga, cada vez mais sua fã... beijinhos pra vc e pra Lelê. Saudades!
    Tia Fabi Othuki

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