Ontem eu descobri que você adora o cheiro da gasolina, sua pirrôta. E você falou de um jeito tão natural e inesperado que acabei dando a gargalhada que me valeu o dia. Foi num posto de combustível pertinho da nossa casa.
Claro que você não se contentou em esperar muito quieta pelo abastecimento. Quis sair pra ver
como o carro é abastecido. Esticou tanto a cabeça pra ver melhor a gasolina jorrando que o frentista alertou uma vez:
- Cuidado. O cheiro é muito forte.
O compartimento da frente do veículo, ali juntinho do motor, também estava vazio. Acompanhamos o moço. Ali, ele foi colocando devagarzinho para não esborrar. E você, quase se desvencilhando dos meus braços e se esticando pra ver mais de perto.
- Cuidado. O cheiro é muito forte.
Contrariando o alerta, você respirou profundamente, enchendo o pulmãozinho de ar. E revelou:
- Eu adorei esse cheiro, mamãe.
O perfume das coisas tem um poder danado, Lê. Eu mesma tenho um creme pra passar nos pés com aroma de castanha. É um cheiro igualzinho ao que eu já senti um dia, muitos, muitos, muitos anos atrás. Não sei exatamente quando e como. Mas traz uma sensação de bem-estar tão gostosa. Nunca consegui enjoar desse cheiro.
 |
| O hidratante mágico |
Gofo de bebês. Também adoro. Nenhuma mamãe de nenhum bebê que gofar em mim precisa pedir desculpas. Aquele azedinho me remete a você recém-nascida, no meu colo, esperando pra arrotar depois de uma bela mamada. Às vezes, vinha só arroto. Outras, aquela gofada que só eu achava um poema.
Música também desperta na gente o mesmo sentimento. Dia desses eu estava ouvindo
Cama e Mesa, de Roberto Carlos, que a gente costuma dizer que é o "Rei" da música romântica brasileira.
Eu quero ser seu travesseiro/ E ter a noite inteira/ Pra te beijar durante o tempo que você dormir/ Eu quero ser o sol que entra no seu quarto adentro/ Te acordar devagarinho/ Te fazer sorrir...
Meu Deus, Helena, ouvir essa música é voltar no tempo em que eu tinha no máximo cinco anos. Vejo uma grande "loja de discos", com pé direito (altura) alto, numa esquina que me parece ser a de alguma rua do Centro do Recife. Vovô e vovó estão lá também. A loja é cor de rosa e tem capas de "LP's" espalhadas pelas paredes. Na "radiola", toca
Cama e Mesa. Parece um sábado pela manhã.
 |
A capa do "disco" do Roberto Carlos
que o vovô e a vovó compraram naquele dia |
Chuva de Prata, de Gal Costa.
 |
| Ouça a chuva mais vezes, amor. Dê voz a ela. |
Chuva de prata que cai sem parar/ Quase me mata de tanto esperar/ Um beijo molhado de luz sela o nosso amor./ Toda vez que o amor disser 'vem comigo'/ Vai sem medo de se arrepender/ Você deve acreditar no que eu digo/ Pode ir fundo / Isso é que é viver...
Agora estou em Natal, no Rio Grande do Norte. Estou na porta da casa de Tia Preta, tia da tia Karol, olhando a chuva que cai fina sobre o jardim. Sinto gosto de farinha láctea na boca. É um domingo de manhã e todos devem estar dormindo. Menos eu. O momento é de paz.
Memórias. Passagens. Sentimentos. O nome disso é história.