quinta-feira, 22 de julho de 2010

vento e areia

Princesas do Mar


Ontem, a praia de Boa Viagem foi nossa, filha. Toda nossa. Já era fim de tarde quando chegamos, eu e você. O mar estava secando. Tirei a toalha cinza da bolsa e forrei sobre a areia. Você já estava na beirinha. Catando as conchinhas, toda feliz. Tinham muitas, de tamanhos e cores variados. Peguei o pote de peixinho que o vovô te deu quando você ainda era bebê para servir como depósito.

- Ei, que tal se a gente fizer um super bolo decorado com as conchinhas?

- Êba!!!

Corre. Pega a pá. Cava, cava, cava. Junta a areia. Alisa o montão com cuidado.

Uma a uma, você foi colocando ali as conchinhas, em cima do bolo. De vez em quando, tentava tirar o cabelo do rosto por causa do vento forte, mas as mãozinhas cheias de areia não deixavam. Isso nem te perturbou.

- Filha, é um bolo para as Princesas do Mar. Polvina, Ester e Tubarina vão amar!

As Princesas do Mar é um desenho do Discovery Kids que você adora. O trio de amigas vive se aventurando pelas águas do oceano. Sua preferida é a Polvina, a cor de rosa.

- Mamãe, como elas vão comer o bolo se ele não está dentro da água?

Foi quando pela primeira vez te expliquei sobre a tábua de marés.

- É que agora a maré está baixinha, mas daqui a pouco o mar vai começar a encher de novo e chegará até aqui.

- Mas, mamãe, as Princesas do Mar são só da imaginação...

- E daí? Elas também podem comer só na imaginação também, não é?

Nessa hora, a praia ganhou mais uma companhia - e não foram as princesas... Foi o papai! Todo engomadinho ainda na roupa do trabalho. Com aquela cara de bobão apaixonado pela gente. Você molhou nosso rei todinho, filha! Que abração!

E ficamos ali, a família feliz, vivendo o início da noite com o barulho do mar e o beijo do vento.

Antes de deixar a areia pra tomar água de coco e comer pipoca doce, você pediu um minutinho a mais. E recolheu as conchas do bolo de areia para jogá-las de volta ao mar.

- É lá o lugar delas, mamãe.

terça-feira, 20 de julho de 2010

yellow submarine



Tem músicas, Helena, que são imortais. Grupos que são imortais. Artistas tão talentosos e cativantes que permanecem vivos mesmo depois de terem partido rumo a outros tempos e lugares. Os Beatles. Eles são eternos. Poderia ter sido mais uma banda de rock britânica da década de 60. Em vez disso, foi a banda. John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Star conquistaram o mundo e infinitas gerações.

Os Beatles tiveram mais álbuns no topo das paradas britânicas do que qualquer outro ato musical. De acordo com a RIAA, eles venderam mais álbuns nos Estados Unidos do que qualquer outro artista. Já foram honrados com sete Grammy Awards, e quinze Ivor Novello Awards da BASCA. Já venderam mais de um bilhão de discos.

Em 1970, quando a banda chegou ao fim, cada músico seguiu para uma carreira independente. Paul McCartney e Ringo Starr continuam ativos; Lennon foi baleado e morto em 1980, e Harrison morreu de câncer em 2001.

Aprendi a gostar dos Beatles quando me interessei por um álbum de seu avô ainda criança. Tinha uns 9 anos. Fiquei hipnotizada com “Help”. Depois, tive um namoradinho que adorava a banda e com ele acabei conhecendo mais sobre o grupo. Depois, já na época da faculdade, estudei com Sofia Zanforlin, amiga querida até hoje. Ela adorava a banda. Quando íamos à faculdade juntas, o caminho percorrido parecia menor só porque os Beatles ajudavam a gente a ver graça naquelas horas perdidas no trânsito.

Tenho no carro um CD com algumas músicas deles. Gosto de todas e canto a maioria. As que falam de amor tocam profundamente. São as minhas preferidas.

E não é que os Beatles ganharam mais uma fãzoca? Uma fãzoca-mirim: você, filha!

- Mamãe, eu quero Yellow Submarine!

É a sua preferida, amor. Yellow Submarine. “We all live in a yellow submarine, yellow submarine, yellow submarine// We all live in a yellow submarine, yellow submarine, yellow submarine”. Você adora cantar. Já devo ter ouvido umas 637 vezes, mas não enjôo nadinha. Ao contrário. O submarino amarelo tem cada vez mais graça.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

perder e ganhar


Ganhar é bom demais, Lê, e você vai sentir isso na pele ao logo desta vida. As conquistas, em especial aquelas fruto de nossa própria dedicação, são incrivelmente prazerosas. Lembro bem de quando passei no vestibular para estudar jornalismo, minha filha. Como foi bom ver o meu nome ali na lista dos aprovados. Depois de anos de estudo, eu conseguia, então, realizar um grande sonho. Anos depois, fiquei toda animada com um concurso que um canal de TV a cabo estava promovendo para escolher sua próxima apresentadora. Fiz a inscrição, elaborei um vídeo e enviei para a emissora. Não deu certo. Neste caso, fiquei desapontada e até triste por alguns dias, mas depois sacudi a poeira e segui em frente. Então é isso: às vezes a gente ganha, mas muitas vezes a gente também perde.

Não foi a vez do Brasil na Copa do Mundo da África do Sul. Perdemos as quartas-de-final para a Holanda por 2x1 e ficamos verdadeiros bagaços. O brasileiro, filha, tem uma paixão tão avassaladora (que significa intensa, profunda) pelo futebol que o país inteiro se enterrou num sentimento de amargura e decepção ruins de sentir. Coisas da vida. Sua avó Raquel sempre me ensinou que se a gente ganhasse o tempo todo - em qualquer situação - significaria alguém também perdendo o tempo todo. Não é uma matemática muito justa, não é mesmo? Além do mais, quem disse que a gente só ganha quando ganha? Perder traz lições fundamentais. Ensina a gente a ser mais humilde, mostra em quê podemos melhorar um pouco mais e faz com que valorizemos nossas vitórias.

Sabe, Helena, relativizar (significa pôr na balança, "ver o outro lado") o que se considera "perda" pode ser pra você um exercício sempre interessante, assim como é pra mim. Por exemplo: quando o Pernambuco Dá Sorte foi suspenso pouco depois do seu nascimento, fiquei sem a minha principal renda. Foi uma aventura a readaptação financeira. Perdi dinheiro. Por outro lado, passava todas as tardes ao seu lado, do acordar ao adormecer, sem qualquer compromisso com entregas de prêmio ou gravação de programa. Ganhei uma preciosidade chamada tempo. E sabe que lembro daquela época com uma ponta de saudade? Treinar o seu olhar para estar voltado às coisas boas que te chegam é superinteressante, Lê. Tem um bocado de gente por aí que vive de olho no que falta. Nunca as coisas são suficientes. Isso é terrível. Torna a vida mais amarga do que café sem açúcar.

Geralmente temos à disposição uma segunda chance. Se for o caso, corra atrás dela. Encare com coragem os desafios. Vibre com suas conquistas e divida este sentimento com os que te cercam. Aceite seus períodos de tristeza e dor. Todo o mundo passa por isso. 2014 vem aí. E sabe onde vai ser a Copa daqui a quatro anos? No nosso Brasil. Prepare o coração, amor. Aos sete anos (sabia que "7" é o meu número da sorte?), você pode sentir pela primeira vez a emoção de ver nossos atletas levantarem a taça mais dourada e reluzente do mundo esportivo.


Porque somos brasileiros, e não desistimos nunca

sexta-feira, 2 de julho de 2010

solidariedade


Nem tudo são flores, filha. Quando coisas ruins acontecem nesta vida linda, a gente tende a falar assim, sabe? Há pouco tempo, uma tragédia natural atingiu milhares de pessoas no nosso estado. Um temporal incrível caiu dos céus durante alguns poucos dias do mês de junho passado. Foi muita chuva - o dobro do que os especialistas esperavam para todo o mês de São João. A quantidade grande de água aterrorizou moradores de áreas de risco - aquelas pessoas mais necessitadas que vivem em morros e em palafitas (casas "suspensas" construídas quase dentro de rios e mares). Foi tanta chuva que teve barreira deslizando, casas sendo destruídas e rios transbordando. De cortar o coração. Mais de 80 mil pessoas acabaram ficando sem ter onde morar ou com seus lares danificados. Algumas cidades, como Palmares, Barreiros e Água Preta, na Zona da Mata de Pernambuco, ficaram submersas (debaixo d'água). Pelo menos 20 pessoas se foram em todo o nosso estado. Era o começo da dor, do sofrimento e do desespero para um número enorme de famílias, que agora estavam sem casa, sem ter o que comer ou beber, sem apoio.

Mas do caos nasceram estrelas.

Solidariedade. Palavra mágica, meu bem. Significa olhar para o próximo, fazer algo por ele, em nome de um mundo mais justo, mais lindo, mais digno.

Gente de todos os lugares se compadeceu com o drama enfrentado pelos amigos pernambucanos. Então, a sociedade toda se mobilizou para ajudar de várias formas. Alguns se juntaram para fazer doação de alimentos, água, roupa, produtos de higiene e colchões. Outras pessoas se cadastraram como voluntárias para ajudar às vítimas das enchentes. Outras fizeram a sua parte com poderosas palavras de carinho e atenção. Sabe por que, filha? Porque somos todos irmãos. E estamos juntos nesta vida. Nenhum homem é uma ilha. Carrega isto contigo. Você vai ver: seu mundo - e tudo ao ser redor - vai se transformar. Te amo.

surpresinhas


Um dia te perguntei o que você ia ser quando crescesse. Tua idade? Hum... uns três anos.

- Lê, o que será que tu vai ser quando crescer, hein?

Segundos de reflexão e, depois, a tua resposta, que me arrancou uma gargalhada:

- Adulta, né, mamãe!