segunda-feira, 3 de maio de 2010

cicatriz

No meio do caminho, tinha um túnel.

Lelê estava no Bode, aqui mesmo de Boa Viagem, onde instalaram há pouco tempo um brinquedão que faz a alegria dos pequenos, mas não a minha. Foi no último sábado. A linda, como sempre, estava repleta de alegria, correndo pra lá e pra cá. Ela adora quando a gente brinca de pega-pega. Eu já tinha levantado umas mil vezes para correr atrás dela. Aquela era a última. Depois, a gente ia comprar sorvete na banquinha.

Não rolou banquinha. Descontroladamente animada, a fofa não se abaixou o suficiente para passar pelo túnel de plástico do brinquedão. Foi com a testa em cheio no alto. Quando virou pra mim já prestes a entrar no choro, só vi a gordurinha branca dando sinal de que a coisa não tinha sido bobagem. Fiquei cega.

Não sei como não atropelei nenhuma criança ao resgatar minha Lê. Sozinho na mesa, Eduardo perdeu a cor quando viu o sangue correr pelo rosto dela. Guardanapo para estancar o sangue. Não! Gelo. Não! Eu queria uma fralda, que apareceu sei lá de onde.

O carro estava na garagem do nosso prédio, tão perto do Bode. Naquele sábado, parecia do outro lado da cidade. Corri de quase perder o fôlego carregando Lelê. Eduardo mais à frente.

Chega ao prédio. Entra no carro. Dá a partida. Raspa com a lateral na pilastra. Santa Joana. Antes, uma parada para pegar a tia Lalau. Precisava de alguém calmo para ajudar a gente.

Segunda parte. Quatro pontos na testa.

Foi em meio a pedidos desesperados de "me salva, mamãe" e "me leva para a nossa casinha" que o procedimento foi feito.

- Deixa eu falar, doutor. Tá tudo bem. Já passou. Não quero costurar a testinha.

- Eu quero vomitar. Deixa eu vomitar!

- Quero fazer cocô. Vou fazer cocô.

Então, Lara levou a pequenina pra fazer cocô. Dois minutos e nada.

- Titia, o cocô não sai. Acho que eu tô nervosinha, titia.

Não teve jeito. Deitada na cama, um segurou os joelhos, o outro os braços e uma enfermeira, a cabeça. Três picadas de anestesia. Aí, gritou pelos primos.

- Pepeu, cadê você??? Guigui, me salva!

...

Dois dias se passaram. Os pontos estão sequinhos. Com um certo custo, fiz ontem o primeiro curativo. Daqui a uma semana vamos voltar ao hospital para retirar os famigerados pontos. O médico já advertiu: vai ser novamente uma odisséia.

2 comentários:

  1. Ah, tadinha... rsrsrs
    Gostei muito da narrativa!

    :D

    Voltarei por aqui em breve!!

    Bjsss

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  2. Uma das minhas lembranças mais antigas é de uma queda na rede. Nem lembro quantos anos tinha, só lembro de estar no colo da minha mãe, dentro do fusca branco do meu pai, e depois de me debater loucamente na maca do hospital enquanto os médicos tentavam costurar meu queixo. Resultado: quatro pontos, uma cicatriz que nem dá pra ver e uma história pra contar.

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